Fabio Tremonte

Vaguear, Transitar, Caminhar, Errar…

13/02/2015

CÓDIGO ABERTO
MÓDULO IV – IMAGINÁRIO
janeiro, fevereiro e março de 2015

CineCaverninha
VAGUEAR, TRANSITAR, CAMINHAR, ERRAR…
curadoria Cauê Alves (SP)

Carla Chaim

O flâneur, tal como aparece na obra do poeta Charles Baudelaire, é um sujeito desocupado, boêmio e que vaga sem rumo definido pelas ruas da Paris do século XIX. Alheio aos valores do mundo capitalista, ele anda vagorosamente em meio a multidão e pelas galerias da cidade. A figura do flâneur é como um emblema da experiência urbana moderna e das reformas pelas quais a Paris dos tempos do Barão Haussmann passava.

Já na segunda metade do século XX, a Teoria da deriva, elaborada pelo pensador situacionista Guy Debord a partir dos estudos  da psicogeografia, repensou o caminhar pela cidade. A ideia é que o ambiente urbano não é composto apenas pelos fatores geográficos e econômicos, mas pelo modo como é representado pelos cidadãos a partir das relações entre a cidade e as condições psíquicas e emocionais dos sujeitos que a habitam. Deriva, em oposição às noções de viagem e passeio, pressupõe uma entrega aos acidentes do território percorrido e das pessoas que nele possam estar. Uma deriva costuma ser longa, é uma jornada entre dois períodos de sono, e está ligado ao caminhar lúdico e construtivo.

Nos anos de 1970, artistas como Richard Long, realizaram caminhadas épicas e construíram fotografias, textos e esculturas a partir de seus trajetos e percursos em áreas rurais e remotas da Grã-Bretanha e de outros países. Hamish Fulton, no mesmo período, se tornou um artista andante, explorando o contato direto com a paisagem e concebendo a arte não como a produção de objetos, mas como experiência de caminhadas.

Os vídeos apresentados em Vaguear, transitar, caminhar, errar…  certamente são devedores da tradição que remonta aoflâneur. Eles são resultados de ações e performances em que artistas perambulam, andam ou captam o movimento dos passantes.  Seja a partir da construção de um percurso narrativo sugerido pelos moradores de Piracicaba e captado a partir de anuncio em jornal (Jaime Lauriano) ou do esforço do corpo em carregar uma árvore nas costas, dentro de uma mochila, num certo trajeto urbano (Felipe Cidade), os trabalhos pressupõem o trânsito. Seja investigando e experimentando sons, numa espécie de rádio ambulante sobre as costa que intriga os cidadãos (Floriano Romano), seja com intervenções em que o artista disponibiliza cartelas com chinelos grátis no centro de São Paulo (Raphael Escobar), os vídeos registram alterações provisórias no cotidiano dos transeuntes e moradores de rua do centro. Caminhar com o pé tingido de vermelho e um chinelo arrebentado numa cidade movimentada (Paulo Nazareth) ou percorrer calçadas com uma bandeira vermelha podem indicar uma atitude política ou, ironicamente, um mero lançamento imobiliário (Fabio Tremonte). A presença de linhas geométricas surgem do caminhar desastrado da própria artista sobre uma estrutura pré-definida (Carla Chaim) ou do desenho aleatório formado pelas rotas dos pedestres (Nicolás Robbio e Ricardo Carioba)

De todo modo, os artistas reelaboram, reinterpretam e desdobram experiências de deriva na contemporaneidade. Alguns trabalhos podem deslocar o cidadão da rotina e talvez romper com certa a atitude blasé perante o mundo. É como se a ação do artista, desde a mais sutil até a mais estridente, pudesse gerar um desvio, uma mudança de percurso ou uma atitude imprevista e sem planejamento. Em vez de priorizar o alcance de objetivos, o fundamental é errar.

Paulo NazarethPROGRAMA

Jaime Lauriano | Pra te conhecer (2011) – 10’20″

Felipe Cidade | Ação niilista em busca da utopia (2013) – 3’23’’

Floriano Romano | Falante (2007) – 05’

Raphael Escobar | Chinelos Grátis (2012) – 12″

Paulo Nazareth | Pé Vermei (2005) – 7’46”

Fabio Tremonte | Redflag [caminhando] (2011) – 2’04″ (loop)

Carla Chaim | Through woods and lines (2013) – 3’40″

Nicolás Robbio e Ricardo Carioba | Geometria acidental (2008) – 3’23″(loop)

 

Programação

Sessão 1*
6ª | 27 de fevereiro | às 16h

Sessão 2*
6ª | 27 de fevereiro | às 19h
Conversa Aberta com Cauê Alves

Sessão 3*
Sábado | 28 de fevereiro | às 16h

*Durante as sessões, todos os trabalhos serão exibidos.

Sobre o Curador

Cauê Alves (São Paulo, Brasil, 1977) é mestre e doutor em Filosofia pela FFLCH-USP e professor do departamento de Arte da PUC-SP. É coordenador do Bacharelado em Artes Visuais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Foi membro do Conselho Consultivo de Artes do MAM-SP (2005-2007) e desde 2006 é curador do Clube de Gravura do MAM-SP. É autor do livro Mira Schendel: avesso do avesso (Bei Editora/ IAC, 2010). Foi um dos curadores do 32º Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo (2011) e curador adjunto da 8ª Bienal do Mercosul (2011). É curador assistente do Pavilhão Brasileiro da 56a Bienal de Veneza (2015).

Ateliê Aberto
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