SOPRO – TRAYECTO SUSPENDIDO | Ruli Moretti

21/02/2016

Saindo de Tijuana em direção a Mexicali, ao final do caminho entramos na zona de La Rumorosa, um pequeno trecho de serra que desce até uma planície deserta que precede Mexicali.

A cadeia de montanhas surpreende por sua formação predominantemente rochosa e pelo terreno acidentado e árido. A presença de destroços de carros ao pé da montanha indica o risco de queda iminente, sinalizando redobrada atenção ao percorrer o trajeto.

No entanto, os acidentes que acontecem ali não são fruto de imperícia: esta área específica é acometida por rajadas de vento súbitas, fortes o suficiente para arrancar os automóveis de sua rota. A área apresenta condições adversas, que tornam o resgate ou retirada destes automóveis praticamente inviável; os destroços, assim como as rochas que se desprendem da montanha pela mesma ação do vento, passam a constituir esta paisagem, aparentemente estática, porém em constante reconfiguração.

Em “Sopro – Trayecto Suspendido”, Karina Alvarez parte da observação destas especificidades para desdobrá-las em leituras possíveis para as relações que se podem estabelecer com este local, ampliando a gama e o significado da representação.

Neste caso, o meio em que se transita é o da paisagem: a noção de paisagem investigada a partir de diversos enfoques traz a combinação de som, vídeo, instalação, desenho, representações e desdobramentos de representações como caminhos de apreensão da realidade, criando um sistema próprio de significações.

Na fachada, peças usadas de carros formam as imagens de Ehecatl, deus do vento na cultura asteca, e de Ehecato Tantli, pequenos deuses com feições de criança que figuram as manifestações de Ehecatl em menor grau: as rajadas, lufadas ou golpes de vento.

Ao adentrar, divisamos o trajeto de La Rumorosa projetado sobre o vidro frontal de um carro. Este suporte marca o limite entre o interior e o exterior do carro, servindo de moldura, filtro e lente que nos transporta até este lugar. A projeção cria reflexos pelas paredes, difundindo a percepção direta em resquícios de imagens que ocupam o espaço de forma imprevista.

Do lado oposto, nos deparamos com vidros parcialmente rompidos, que emolduram desenhos dos padrões visuais criados por estas rochas. O espaço se modifica com uma instalação sonora na qual ouvimos um som de respiração, assim como ruídos criados a partir da aproximação das pessoas.

No andar de baixo, encontramos desenhos desta paisagem, combinados ao som que caracteriza o ambiente: um leitor de pixels traduz níveis de contraste e saturação da imagem em informação sonora.

A construção sobre esta localidade, remota e ancestral, nos oferece a possibilidade renovada de experimentar a sensação de assombro com aquilo que não pode ser nomeado e que escapa à compreensão: colocar-se em deslocamento entre estas duas cidades nos devolve a uma realidade que é avessa ao homem, agressiva e inconstante.

A atualidade deste contexto é o que justifica a escolha por sua representação: os desdobramentos aos quais é submetido são tentativas de organizar o caos que se impõe, incontrolável e irreversível.

 


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