Solo comum | Thais Rivitti

21/03/2016

A intenção de reunir, em um mesmo local, a produção de vários espaços independentes pretende mostrar o que eles vêm realizando, os artistas com que trabalham e as atividades que promovem. Traçar um panorama, uma visão geral.

Entretanto, como resultado dessa mistura, talvez, o que salte aos olhos sejam suas diferenças. Os espaços que participam da mostra “Espaços Independentes: a alma é o segredo do negócio” têm diferentes modos de ação e de intervenção no meio artístico. Cada um deles – como suas trajetórias singulares, com gestores que vêm de áreas diferentes, com ambições e desafios próprios – desenvolve sua programação de forma peculiar. Nesse sentido, a pergunta  sobre o papel dos espaços independentes na cena artística atual torna-se difícil de ser respondida em uníssono.

Feita essa ressalva, caberia perguntar se há um solo comum, a partir do qual os espaços iniciam sua atuação. O que faz com que, no presente momento, muitos artistas, curadores e produtores dediquem seu tempo e energia a fundar – e manter – um espaço de arte independente?  Acredito que há alguns pontos convergentes, questões comuns a todos, que estão na base de todas as empreitada desse tipo.

Lacunas do sistema

O esforço de tocar um espaço de arte vem sempre acompanhado de uma espécie de convicção acerca da insuficiência do circuito tradicional. Os espaços independentes são abertos pois há muitos artistas que querem expor sua produção e não encontram um local para tal; pois há determinadas práticas artísticas (residências, mostras de videoarte e performance, trabalhos site-specific) que não têm muito espaço nas instituições; porque as escolas de arte não cumprem o papel de discutir as questões atuais e realmente relevantes para o jovem artista… A lista poderia seguir, levando-nos a crer que há um tipo de atividade que só pode ter lugar nesses espaços independentes. Normalmente nos referimos a elas como ações experimentais.

Arte experimental

Falar em experimentalismo, contudo, não basta. Sabemos como o termo foi utilizado amplamente durante as décadas de 1960 e 1970 para dar conta de uma produção artística que questionava a possibilidade de a arte acontecer em museus e galerias, que desejava atuar na vida, libertar o exercício criativo das formas artísticas já existentes, já categorizadas.

Naturalmente nos perguntamos, então, o que sobrou desse experimentalismo hoje. Diante dos parangolés de Oiticica cuidadosamente expostos em instituições de arte, dos objetos relacionais de Lygia Clark que figuram, sem atrito, em livros de História da Arte, como podemos nos apropriar novamente dessa noção que, à primeira vista, parece não ter resistido a suas próprias premissas? Depois do alargamento da noção de arte, agora percebida como intrinsecamente ligada a outros campos como a arquitetura, a poesia, o cinema, a música, as novas tecnologias, a interdisciplinariedade parece não ser mais algo da ordem do experimental – que envolve riscos, quebra de padrões, instauração do novo – mas algo plenamente incorporado aos trabalhos contemporâneos. O que significa, hoje, levar a cabo o experimentalismo na arte? Essa é a pergunta chave que os espaços independentes parecem fazer a si mesmos, quando pensam em sua programação, quando montam suas atividades, quando se inserem no debate.

Por um lado, a sensação de falta de espaço ou interesse do circuito institucional em uma produção nova e ainda não formatada. Por outro, o desafio de não repetir fórmulas gastas: o risco de se transformar em uma galeria que agencia novos artistas (para aqueles espaços que se dedicam mais ao mercado), bem como uma institucionalização, aos moldes de uma escola de artes (para aqueles que se dedicam mais a atividades de formação) está sempre posto. Os espaços independentes têm que inventar um novo jeito novo de fazer as coisas.

Um novo jeito de fazer

Uma primeira característica da programação dos independentes é o alargamento da noção de exposição. A exposição não é vista como único formato possível de tornar público o trabalho de um artista. Os espaços fazem publicações, abrem-se para falas de artistas, propõe-se a ser amplos a acolher todo tipo de manifestação, despreocupados, num primeiro momento, em inseri-las no campo específico da arte: É perfomance? É happening?  É instalação? É site-specific? É arte?

Muitas vezes, as exposições que têm lugar nesses espaços comentam a si mesmas. Perguntam, por exemplo, sobre o poder de uma exposição em legitimar uma produção, ou um artista.  Outras vezes, negam os princípios da dita “boa montagem”, sempre calcados nas tradições museológicas. Problematizam a duração de uma mostra, seu alcance, o interesse que possam despertar: daí a recorrência de apresentações mais efêmeras, de trabalhos que respondem a questões específicas, que dialogam com um público mais cativo.

Sustentação

A própria sustentação do espaço é um ponto sempre delicado para iniciativas que não têm em mãos uma carteira de colecionadores, que não contam com apoiadores, que não tem facilidade de conseguir patrocínio. Garantir a sustentação é, no limite, garantir a continuidade do projeto. A dificuldade em manter um espaço ativo, também é tematizada no interior de suas atividades, não raro as propostas têm como foco o debate sobre o valor do trabalho de arte, o funcionamento do mercado, a circulação de trabalhos. Entrelaçam-se, intensamente, as reflexões sobre o sistema da arte, as práticas de compra e venda e a própria programação. Assim como também aparecem cada vez mais misturados os papéis de artista, de curador e gestor (para cita alguns), as linhas se embaralham e as pessoas envolvidas nas propostas jogam em posições diferentes.

Autogestão

Por fim, seria necessário observar que o modo de trabalho dentro desses espaços é bastante distinto da organização tradicional do mundo do trabalho. Nota-se a lógica da troca direta, ou do engajamento, que muitas vezes não passa pela convencional remuneração por horas trabalhadas. Assim, os espaços têm a missão constante de se mostrarem interessantes para os artistas e outros agentes do circuito. É só mobilizando o desejo deles, o desejo de participar de suas atividades, de ajudar a construir o espaço que se têm o combustível necessário para seguir produzindo.

Muito resumidamente, como cabe em um texto como este, podemos pensar papel experimental dos independentes nos seguintes termos: um questionamento acerca da forma exposição como forma privilegiada de conhecer a produção de um artista, uma recusa em apartar das discussões propriamente estéticas os embates financeiros e administrativos que o próprio mercado da arte coloca e, por fim, uma escolha em ter como aliados, como parceiros que permitem a continuidade do projeto, não o setor público ou o setor privado, mas os próprios beneficiários das ações que promovem (artistas, curadores, pesquisadores e interessados em arte).


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