Seja Lá Onde For

05/05/2004


Local: Museu de Arte Contemporânea de Americana

Curadoria: Samantha Moreira
Produção: A teliê Aberto e Maíra Endo
Artistas: Daniel Acosta, Mariana Palma,Daniel Trench, Chris Meirelles,Ricardo Vieira,Lia Chaia, Marilde Stropp, Marcos Lemes, Ana Almeida, Maurizio Mancioli, MarceloMoscheta, Jurandy Valença, Fabiana Rossarola, Sarah Valle, Rodrigo Scooby e Nilsa Volpato

 

“Seja Lá Onde For”  apresenta trabalhos de 16 artistas que buscam novas possibilidades e descobertas de paisagens e lugares no cotidiano. Escape, respiro, delírio, memória, construção/ reconstrução, lugares imaginários, arquiteturas improváveis, são algumas das situações recorrentes nas obras apresentadas na exposição através da diversidade de linguagens e vertentes contemporâneas, como pintura, projeção, esculturas, fotografia, instalação, gravura, etc.

De imagens arquitetônicas encontradas em um livro comprado em um sebo  à construção de um lago portátil. Da reinvenção de paisagens naturais à criação de paisagens do inconsciente.

O trabalho de Lia Chaia  Escultura da Vereda, se assemelha a plantas esculpidas como nos clássicos jardins franceses, porem são construídas como displays de bancas de jornal espalhados pelas ruas. Bem humoradas , essas esculturas planas que logo revelam sua estrutura escancaram a artificialidade de publicidade e a função cenográfica que a vegetação adquiriu entre nós.

Na serie “Litoral” , Chris Meirelles mais uma vez se desloca para a natureza para recriar paisagens.  Navega em águas mais profundas, no confronto da idéia de mar como metáfora de  uma dimensão infinita e a própria paisagem interior . A imagem é arrastada digitalmente nas direções laterais criando impressões de pinceladas ralas e homogêneas. Por meio desse processo, a imagem se aproxima da pintura e o mar ganha maior fluidez. A idéia de captar o movimento no tempo e espaço e tornar a paisagem fluida, líquida. A Paisagem manipulada.

Jurandy Valença apresenta dois trabalhos da série Simulacros Góticos foram concebidas em 2002, a partir de fotografias polaroides tiradas das páginas de um livro encontrado em um sebo da cidade de São Paulo. Chamado “Gotische Skulpturen des Freiburger Munsters”, o livro – de autoria de Otto Schmitt – foi publicado em 1926, e contém uma série de imagens (gravuras) em preto e branco de construções, pórticos, corredores, fachadas, esculturas e gárgulas do período gótico alemão.
A partir dessa apropriação de imagens alheias, surgiram as fotografias da série, em vários tons de cores conseguidos através de interferências no flash da própria máquina Polaroid.

O resultado final são fotografias de médio e grande formato impressas em papel fotográfico a partir do arquivo digital da polaroide escaneada. Não há nenhuma manipulação digital durante o processo. A única manipulação é manual (com os dedos no flash), no ato de registrar a imagem em polaroid.
A partir de imagens já existentes, procuro questionar a representação das coisas, duvidar do que a fotografia mostra, até mesmo questionar o meio. Ficar entre a fotografia e a pintura, entre a cópia e o original, entre o que é e o que não é.

A fotografia e o scaner são também processo do trabalho de Ricardo Vieira.  Em um mundo de artifício, mas também de poesia, as paisagens reinventadas de Vieira são uma reciclagem conceitual de paisagens registradas e até descartadas.

As pinturas de Mariana Palma nos mostram uma paisagem de tecidos velando uma duvidosa cena composta por corpos deslocados ou fragmentados, que reforçam o estranhamento da paisagem que desta cena nasce. São paisagens compostas  com um sentido de lugar isolado e suspenso no tempo.

Esses trabalhos brotam do repertório imagético que habita a pintura da artista: paisagens inventadas do acúmulo de padronagens de tecido; lustres ornamentados; elementos diversos da natureza e fragmentos de corpos femininos – referências que resultam em um corpo híbrido e que faz deslumbrar pelo excesso.
Vemos partes de corpos invadidos por vegetação, onde cada imagem é elaborada com a intenção de camuflar a identidade que pertence àquela porção de corpo em repouso. A idéia de artifício está colocada na obra e nos leva a questionar o que vemos para relacionar seus possíveis desajustes. Desconfiamos, por vezes, da natureza da pele que nos apresenta ou indagamos sobre a origem da vegetação a sua volta. Não há, no entanto, sinais de violação; existe uma estranha calma nesse jardim. O corpo em simbiose com a natureza parece nutrir-se do fluxo necessário para se constituir e transpor o isolamento. O trabalho cria suposições sobre o esgotamento da visualidade no mundo atual – quando desloca a vida cotidiana para o campo da natureza, a artista transpõe um corpo desprovido de aparência. Porém, os corpos ainda preservam as suas singularidades.

Nilsa Volpato apresenta trabalhos que acontecem por meio da apropriação de imagens de revistas de decoração, viagens, calendários, extraídas de um universo efêmero e suscetível a um esgotamento visual periódico.

São trabalhos desenvolvidos em folhas selecionadas de paisagens urbanas de antigos folhetos anuais, destituídos de sua função original. Destinado a orientação do tempo e fadados ao esquecimento, esses folhetos são revistos e reconstituídos sob uma nova leitura promovendo esses encartes a uma poética imaginária resgatada de suas localidades acessíveis e “portáteis.”

Em suas imagens diluídas de excessos, filtram-se as formas, fragmentam-se espaços que se reconstroem entre camadas, vestígios, superfícies por um processo de “quase pintura” que velam e revelam subterfúgios e memórias cristalizadas.

A característica mais marcante da gravura é, sem dúvida, sua multiplicidade. Em PORTA SAN TOMASO, trabalho de Marcelo Moscheta a matriz funciona como uma casa na qual cada tijolo desempenha seu papel na sustentação do todo, assim, (re)construo o espaço histórico através de seus fragmentos. Reduzo a gravura à uma de suas construções formais básicas: a cor, tornando cada fragmento, que por si só é uma matriz, em uma imagem sem significado e desprovida da relação inicial com o motivo, o que, só acontece quando conjunto, distorcendo o presente ao mesmo tempo em que o apreende. Ela não se entrega por inteiro aos olhos de quem as contempla, é preciso fabular sua situação e procurar o melhor ângulo (quanto mais distante do presente, mais próximo da imagem original).

A série de fotografias “Sombras”  de Maurizio Mancioli  foi concebida em 2001, durante uma temporada de férias na Sardenha (Itália), e produzida em 2003. As imagens surgiram a partir de uma brincadeira de registrar a sombra sobre a superfície do mar e das rochas, compondo “auto-retratos” que fossem quase abstrações.

As fotos – todas digitais – foram realizadas em P&B, em negativo, com o objetivo de retirar, “camuflar” as referências do real. Há também na maioria das fotografias uma certa simetria que proporciona um resultado mais gráfico, que reforça essa abstração do real.
A série procura estabelecer relações, peculiaridades, através do lúdico, do registro “banal” das sombras. Sombras, reflexos, formas que, às avessas, em seu negativo, mostram uma nova realidade. Entre o claro e o escuro, entre a luz e a sua ausência – a sombra – o trabalho acontece.

A sombra também é  acontece no trabalho de Ana Almeida. Em Como levar o mar para dentro de casa, poças d`água na lona de cobertura de piscina tranformam-se num grande refletor de paisagens externas. Imagens que sugerem o deslocamento para um outro lugar, trazendo para dentro de casa um espaço não habitado, prazeroso – oásis, mar, praia. É como se esta paisagem surgisse de um “descascar” de peles das imagens refletidas.

Em Mapas de um lugar não identificado de Sarah Valle, um desenho que se constrói sem adição de matéria.
Pacientemente as linhas surgem. Em silêncio constroem-se territórios: lugares e caminhos a serem percorridos, livres de fronteiras, ou quando muito, tão frágeis que se permitem serem ultrapassadas. Assim, aquilo que antes limitava, dá lugar a expansão.
Observado a distância, somente os relevos são notados.Num contato mais próximo esses desenhos se tornam visíveis como cartografias imaginárias. Através da superfície laminada do papel, o espectador torna-se o último elemento do trabalho, seu rosto, a cor de sua roupa, seus gestos acabam por interferir nesse novo território prestes a ser explorado.

Marilde Stropp , com o trabalho O Lado de dentro, faz com que a parede real dê lugar a um imenso fragmento de imagens refletidas. A paisagem do jardim contemplada desde a porta do museu não só é trazida para o interior silencioso da sala, como também é multiplicada quase que infinitamente, refletida e fragmentada. imagem de pessoas e objetos que compõem, naquele momento, o espaço da sala são igualmente recortadas e multiplicadas. Vê-se, então um novo espaço, uma nova paisagem, novas dimensões, novas escalas.

Daniel Trench apresenta estéreo-escape uma hora e vinte minutos é constituído por oitenta imagens do skyline da cidade de São Paulo fotografadas de um ponto fixo num intervalo de um em um minuto. Essas imagens são então processadas em cromo e projetadas através de um projetor de slides respeitando o mesmo intervalo temporal no qual foram concebidas (de um em um minuto).

Daniel Acosta
apresenta uma escultura intitulada Shoplake,  “paisagens portáteis”  um lago  de fórmica azul que ocupa azul o centro do espaço expositivo. È como se o artista possibilitasse o visitante se banhar em lagos imaginários.

Rodrigo Scooby apresenta dois trabalhos intitulados Recortes Relevantes – da série Urbanidade Tortuosa . Essa pesquisa surgiu em metade de 1998 através da experiência  dos traços do grafitti  e da tatuagem combinados com recortes e  sobreposição de chapas de madeira, criando objetos tridimensionais com altos e baixos relevos. Através desse processo, Urbanidade Tortuosa cria um cenário urbano/ lúdico e descompromissado assim como o grafitti.
As esculturas agora em grandes escalas [1,70 cm de altura por 0,70 de largura] deslocam esses “objetos” para um lugar real, onde o espectador passa a ser o habitante dessa paisagem aparentemente vazia.

Marcos Lemes constrói paisagens com alfinetes e fios sobre folhas de papel sulfite. Costura no espaço trazendo imagens contínuas de fios e torres de eletricidade. Paisagem de um universo urbano e caótico representado com poesia e leveza.


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