Projeto Ponte – Ateliê Aberto + Tote

13/05/2006

13 de maio a 02 de junho de 2006
Local: Tote Espaço Cultural – Campinas / SP

Artistas: Ana Almeida | Cecilia Stelini | Dorothea Freire | Flaviana Tannus | Marilde Stropp | Sarah Valle
Curadoria: Samantha Moreira e Sylvia Furegatti
Direção de arte e design gráfico:Érika Pozetti.
Local: Tote Espaço Cultural – Av. D. Maria Franco Salgado, 260  Sousas Campinas SP | fone: 3258-9298.
Abertura: 12 de maio às 20h00
Visitação: de 13/05 a 02/06/06
Horários: segunda a sexta-feira das 09h00 às 12h00 e das 14h00 às 18h00; sábados das 10h00 às 13h00.
Para outras informações: www.atelieaberto.art.br ; www.toteespacocultural.com.br

 

 

Iniciando uma nova frente de trabalhos, o Ateliê Aberto propõe criar uma ponte entre espaços culturais da cidade realizando uma curadoria de exposição no Tote – Espaço Cultural de Sousas.

O Projeto Ponte foi idealizado a partir das discussões feitas durante as orientações de projetos em andamento no atual grupo de artistas que freqüenta o Ateliê Aberto. Seu formato de exposição estabelece uma conexão entre ateliês que reflete um antigo desejo desses espaços de trabalho em nossa cidade: aproximação de condutas e valores sobre os caminhos da arte contemporânea fora dos grandes centros.

Nesse tipo de orientação, usual em ateliês de arte principalmente nos grandes centros urbanos, artistas e críticos discutem, organizam e aprofundam aspectos técnicos e criativos  importantes e profissionalizantes das linguagens artísticas que cada pessoa está desenvolvendo.

Em paralelo com o trabalho formal dos cursos universitários, esse é um tipo de orientação que busca conectar o artista ao circuito das artes enfatizando a qualidade e a atualidade de suas propostas em relação aos eventos de que se tem conhecimento. Desenvolvido há vários anos no Ateliê Aberto, desde o ano passado, tem sido organizado de forma conjunta por Samantha Moreira e Sylvia Furegatti que assinam essa curadoria.

Ao atual grupo formado por oito artistas (novatos e conhecidos) foi proposto o desafio de participar dessa extensão espacial, cada vez mais comum no trabalho do artista contemporâneo, fundindo aspectos do afinamento de suas linguagens individuais à curadoria derivada desses encontros.

Com isso, o Ateliê Aberto propôs, como seu primeiro parceiro para essa ponte de trabalho, o Tote – Espaço Cultural de Norma Vieira e Vera Orsini, que também comungam dessa mesma direção e produção sobre a Arte Contemporânea.

A ponte será construída, portanto, a partir dos trabalhos de Ana Almeida, Cecília Stelini, Dorothea Freire, Flaviana Tannus, Marilde Stropp e Sarah Valle que participam dessa primeira edição.

Cada proposta, bem como o formato geral do evento, transfere o universo do Ateliê Aberto para o Tote. O modelo da abertura com som de djs e bar aberto será levado ipisis litteris ao Tote de tal forma que o visitante da exposição possa ambientar a fusão proposta.  Arte, bar e boa música (Duo Mo’Ma – Samantha Moreira e Guilherme Maglio) fazem parte do repertório da noite de abertura. Também se manteve a direção de arte e design gráfico do projeto com o trabalho de Érika Pozetti.

Para o espaço expositivo, as artistas buscaram elaborar seu trabalho em consonância com o conceito de site specific art adequando a dimensão, materiais, espaços, fluxos e temáticas às características do Tote.

Ana Almeida apresenta uma seqüência de foto-montagens intitulada “Trepantes, Sentantes e Afins”.

Trata-se de uma série nova na qual a artista, que já tem um currículo artístico com passagens individuais e coletivas importantes, com destaque para sua participação mais recente no projeto Afinidades Eletivas do espaço cultural da CPFL no ano passado.
Para essa exposição apresenta uma narrativa fotográfica elaborada a partir de interferências devidas à presença de criaturas abstratas que tomam forma no cenário urbano. Surgidas na forma original de objetos que a artista tem elaborado nos últimos anos sob o título de: “Do que está para nascer” essas criaturas, já bastante trabalhadas e expostas em projetos anteriores, migram agora para o espaço bidimensional da fotografia servindo à artista como personagens que se inserem no contexto mais íntimo da imagem nos fazendo supor sua provável existência naquele cotidiano: surgem em cenas de grandes cidades como Nova York, Paris ou mesmo Campinas de um modo tão inusitado quanto possível.
Questiona nossa capacidade de reter as informações visuais do fluxo que conseguimos enxergar no sobrecarregado mundo atual, sugerindo, como pano de fundo, um tom hilário para essa dúvida.

Cecilia Stelini apresenta uma nova performance. Ela, que tambémtem um longo currículo de trabalho, participou da mostra AfinidadesEletivas da CPFL Cultural e foi selecionada para o Banco deDados do Mapeamento do Itaú Cultural para esse ano de 2006. Atuante em linguagens bastante versáteis, Cecilia Stelini trabalha com desenhos, objetos, performances e intervenções urbanas. Para o Projeto Ponte apresenta “Bentos” – um híbrido de performance e instalação.

Areia, objetos em vidro soprado, desenhos e água são os elementos constituintes desse trabalho que ocorre tanto nos espaços interno e externo do Tote. Tudo se concentra na transmutação de 120 corações de vidro na cor púrpura que são retirados de um monte (uma tonelada) de areia fina e branca. Os elementos evidentemente rituais do trabalho da artista nos remetem à areia como símbolo da idéia da quantidade; na qual o número de grãos de areia é igual ao número de pecados dos quais nos desfazemos.
Cuidadosamente levados para o espelho d’agua da arquitetura da Galeria do Tote os objetos são banhados numa espécie de ritual batismal de purificação. Dentro da galeria ficam os desenhos-colagens que apresentam as etapas construtivas além de outras poéticas do projeto.

Dorothea Freire tem desenvolvido seu trabalho artístico dirigindo-se para a pesquisa e produção de arte tecnológica além de intervenções urbanas. “Pavilhão Nacional” é o título da série que ela apresenta no projeto em exposição no Tote. Envolvida numa pesquisa visual e conceitual sobre tudo aquilo que se pode considerar um símbolo máximo de viés político, vai buscar na referência de Bandeiras Nacionais a linha matriz de sua atual investigação criativa.

A proposta é quase uma afronta, uma provocação diante do atual estado de (des)valorização de signos formais e oficiais nossos conhecidos. A bandeira que apresenta aqui lembra do quão fragmentado e diluído estão os matizes de referências cultuados nesse século XXI.

Resultado de uma série de fotografias digitais que vem elaborando nos últimos meses, a artista recorre, com essa imagem algo sagrada, ao título Pavilhão Nacional procurando guardar elementos fluentes entre dois campos bastante conhecidos: o termo Pavilhão, empregado tanto para o espaço arquitetônico construído quanto para o Símbolo de uma Nacionalidade, confronta os mapas globalizados mais usuais na atualidade além de, dentro desse sistema artístico, nos lembrar dos formatos adotados pelas Bienais Internacionais e seus pavilhões de representação por países.

Uma única imagem fotográfica será apresentada. “Pavilhão Nacional” traz a imagem da bandeira brasileira elaborada a partir do processo digital em papel fotográfico brilhante adesivado sob acrílico. Em dimensão ampliada, constrangedoramente bela para o mundo contemporâneo e seu discurso pluralista, a imagem criada pela artista não contradiz a força contemporânea que usualmente segue outras direções. Nesse trabalho, limpo, liso, ampliado, gravita uma poética atualizada entre o envolvimento político e o sagrado das sociedades de hoje.

Flaviana Tannus apresenta “Adornos da Dependência”, uma série de peças nas quais pedras preciosas, contas de colar e de um rosário são substituídas por comprimidos e cápsulas de remédios.

O trabalho é apresentado na forma de uma instalação com desenho, objetos, folder e plotagem no espaço da loja já existente do Tote. Flaviana tem conduzido sua pesquisa pautada por uma pergunta crítica: como trabalhar a arte para recodificar o uso freqüente de medicamentos que parecem devolver ao homem, tanto quanto faz a arte, algo que lhes garanta a existência.

A confecção das peças segue tal rigor de acabamento e composição que facilmente confunde o espectador. Seus objetos guardam uma tensão característica do trabalho artístico atual retocando a noção de tempo e memória. Na série “Adornos da Dependência” o real está dopado. Essas peças que sugerem ornamentar o corpo com formatos de brincos, anéis e colares, são também materializações das bulas que nos instruem como viver já que substituem a pedra rara pelo remédio de todo dia. Traduzem o corpo pelo seu avesso expondoa voz de dentro silenciada pelo barulho provocado por fora como diz a artista no texto que acompanha plotado na vitrine.

Marilde Stropp é uma pesquisadora cuidadosa da imagem fotográfica. Pratica fotografia

convencional e digital há vários anos e tem exposto seu trabalho em diferentes projetos tanto em Campinas quanto na região. Para a exposição no Tote, Marilde nos faz conferir essa anunciada qualidade de pesquisa. Apresenta a instalação artística “O lado de dentro” onde propõe o deslocamento da imagem “plana” para o campo tridimensional. Não há fotografia nos moldes convencionais aqui, mas sim seu espectro primeiro: a captura da luz e dos seus reflexos.

Construindo uma parede de caixas-espelhos a artista remodela completamente a estrutura física do espaço da galeria propondo um movimento de luz que é vivenciado pelo espectador a cada experiência de visita que ele se propuser a fazer. Remontando aqui aos estudos renascentistas sobre a câmara escura ou mesmo ao interesse dos artistas minimalistas como Dan Flavin ou James Turell, Marilde está interessada numa qualidade extremamente frágil e única da imagem. Além dessas referencias conceituais a artista interessa-se profundamente pela discussão e processos criativos presentes no trabalho da brasileira Ana Maria Tavares.
Em seu projeto, a parede, integralmente revestida por caixas de vidro vazias onde uma das faces é espelhada, cria uma superfície especular de imagens superpostas, invertidas e completamente fragmentadas nas quais as imagens das pessoas e objetos no interior da sala multiplicam-se infinitamente, num jogo confuso de afastamentos e dimensões diversas.

Instalado no Tote seu trabalho ganha uma força especial devido ao perfeito ajustamento que consegue com a arquitetura do lugar (feita por planos regulares, em vidro e concreto). Esse ajuste colabora com o conceito do projeto em sublevar seu suporte: não há mais a parede real, mas sim e apenas, reflexos, pontos virtuais pertencentes ao espelho. O originário e sua imagem, coexistem, assim como o sujeito contemplado e o espelho que o contempla.

Sarah Valle dá continuidade a pesquisa apresentada no início desse ano no Ateliê Aberto – “desenhoemprocessoconstante” que mereceu destaque nos 10+ do Caderno Mais da Folha de São Paulo. No Tote apresenta “Percursos”, instalação composta de recortes de papel e alumínio em pequenas dimensões colados um a um em tiras lineares e ramificadas que são pregadas nas paredes do espaço. Cada pequeno recorte apresenta um desenho abstrato, fluído que extrapola seus limites agrupando-os.

Como se fosse uma planta trepadeira, seus desenhos irrompem pelo espaço arquitetônico escolhendo os melhores lugares para alternar sua apresentação por meio de uma composição de ritmo e movimento harmonioso.

Esses desenhos tramados, em forma de correntes e micro-estruturas que “caminham” pelas paredes e teto do local expositivo evitam o lugar óbvio do desenho tradicional conferindo à sua pesquisa uma forte condição contemporânea.

Sarah trabalha de forma compulsiva respeitando, sábia e incondicionalmente, a exigência do bom desenho. Seu resultado abstrato não impede uma leitura que nos remete a uma paisagem aérea, a uma geografia bastante particular da artista, mas que bem poderia justificar-se nas conhecidas vistas de viagem e percursos que executamos movidos por novos paradeiros. Todos abstratos de alguma forma.

O eixo condutor final dessa curadoria valeu-se da qualidade dessas pesquisas em desenvolvimento nas orientações do Ateliê Aberto. Construída assim, em movimento, a partir dessas discussões, apresenta uma proposta para se compreender os resultados práticos desse convívio entre artistas.


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