O grande livro; ou, ritual para realidade irreparável | Ana Luisa Lima

21/02/2016

Como naquela noite em que vi uma escrita contundente nas peles de cinco homens. A escrita atravessava as peles e azulava o sangue. E o músculo-bomba latejava uma realidade irreparável. Era algo que os violentava e que para voltar a ter seus vermelhos correndo por dentro – aquilo que os faziam demasiadamente humanos – teriam que destilar para fora aquele azul pelos poros.

Ai daquele que ousa falar em política sem que reconheça em si mesmo seu próprio embaraço. O corpo político é atávico. O mero conteúdo do político não é por si mesmo político – sem o corpo que faz do verbo carne. Não é política a arte manejada numa circunscrição apática dentro de um discurso legitimador, ou de paredes brancas institucionalmente banalizadas.

E aqueles cinco homens transpiraram e se derramaram em criações ruidosas. Como chuva de pratos que se espalham em estilhaços. Ou derramamento de um vermelho-sangue sobre o desejo confesso borrado pela língua salivada. Ou é um deus-sol que cospe pragas sobre aqueles que sobrevivem de bobos discursos, sob uma realidade-simulacro. Ou palavras absorvidas por suas sutilezas que cortam por dentro como navalhas. Ou ainda, o corpo performático que ofende o bom gosto e disseca a alma.

Ai daquele que ousa demarcar as intenções artísticas, ou intenta conferir a si mesmo autoria pela decifração dessas. Ai daqueles que inflam egos e insistem em palavras amarrotadas sobre aquilo que da ordem do ritual e não da manipulação de um conceito pseudo-filosófico. Aqueles que fazem isso há de trazer a si mesmos uma existência seca e fantasmagórica.

E as criações daqueles cinco homens eram cor, textura, largura, altura, volume, de um grande livro. Cada criação era um capítulo que se desvelava a cada aproximação do corpo. Eram quase infinitas as camadas de conhecimento que estavam ora sobrepostas, ora justapostas, ora escondidas, existindo de maneira elíptica. E aqueles cinco homens destilaram para fora o azul pelos seus poros e o grande livro que fizeram era agora o que atravessava outras peles de mulheres e homens. E lhes coloriam o sangue de uma realidade irreparável.


Deixe um comentário