O ESPELHO DO AVESSO | Ana Luisa Lima

21/02/2016

E o menino com o brilho do sol
Na menina dos olhos
Sorri e estende a mão
Entregando o seu coração
E eu entrego o meu coração
E eu entro na roda
E canto as antigas cantigas
De amigo irmão
As canções de amanhecer
Lumiar e escuridão
E é como se eu despertasse de um sonho
Que não me deixou viver
E a vida explodisse em meu peito
Com as cores que eu não sonhei
E é como se eu descobrisse que a força
Esteve o tempo todo em mim
E é como se então de repente eu chegasse
Ao fundo do fim
De volta ao começo
Ao fundo do fim
De volta ao começo

(Gonzaguinha em De volta ao começo)

 

O ESPELHO DO AVESSO

Por Ana Luisa Lima

-       Podemos parar um pouco?

-       Cansou de caminhar?

-       Estamos indo para onde? Se eu souber, talvez eu queira ir.

-       É disso que estou falando.

-       Mas você foi só silêncio desde que começamos a caminhar.

*

De repente somos assaltados por algum vazio e isso, por si só, parece ser motivo bastante de profunda angústia.

Mas há vazios e vazios. Uns que significam a falta e outros que estão inundados de presença. Naquilo que se sabe a falta, mora uma dor. Contudo, já se deu conta daquilo que se faz presente ainda que não se pode nominar? É neste vazio que a alma está abrigada: onde não se sabe quando começa e termina um prazer.

Que possibilidade é essa de existência sem distinção do sentir? Parece-me que há sempre uma animosidade que aguça o faro atrás de qualquer conflito que possa trazer de volta alguma sensação conhecida.

Saber-se quieto, apaziguado, é talvez o maior dos desafios. Não à toa é que insistimos nos abismos da fala. Há na fala o desejo de reação das coisas desconhecidas. Como se os verbos pudessem animar tais coisas a deixarem seus estados do inapreensível.

*

O menino largou a mão do pai e correu até o último banco do calçadão que dava para a praia. Pôs-se de pé no canto direito deixando as pontas dos dedos sobrarem para frente. Exatamente dali, ereto e sem se mover, seu olhar estaria completamente preenchido pelo mar.

O pai aproximou-se e perguntou: – Guilherme, o que está procurando?

*

Não são nas memórias onde buscamos conforto? Naquilo que temos como certo? Como se jogássemos uma âncora em algo que fora realmente vivido. Ativamos a memória em nossos estados de solidão. Aquele insuportável vazio de estarmos sozinhos e sem sentido. Errantes.

E o que é a memória senão um grande vazio? Imaterial e incorpórea. Ainda assim é nesse lugar sem matéria e sem corpo que depositamos sentido. E com isso, pensamos que também passamos a ter sentido.

Nesse instante somos o espelho do avesso. Como um mar que reflete o céu. A face que dá para fora é inquieta. Reflete e tem as cores do passado. No céu tudo é passado. Algo acontecido anos-luz dali. Face adentro tudo é presente, agora, vivo, pulsante. Quanto mais fundo, mais azul, mais escuro. São outros os abismos.

*

-       Não estou procurando nada, pai. Já achei.

-       O que achou?

Quieto e ensimesmado, Guilherme continuou ali de pé. Levemente irritado com a constância do pai em lhe perguntar: – vamos, me diga, o que achou? Foi quando se deu conta que talvez ter exatamente 7 anos, que lhe proporcionava ter exatamente aquela altura, permitia só a ele ver o que via.

*

Há tempos que tudo começou a ter necessidade de ser sabido, conhecido, nomeado, distinto: luz, sombra, céu, mar, verdade, mentira. Foi assim que nos afastamos do legado do Deus que nos fez indistintos. Somos feitos de tudo e de nada.

Como o mar, deixamos nossa face que dá para fora refletir o que em nós é passado. E nos furtamos de mergulhar cá dentro, onde tudo é novo, vivo, profundo e insondável. Somos feitos de superfície e abismo.

*

Certo dia, Guilherme havia perguntado ao pai o que era o horizonte. Seu pai imediatamente lhe disse, sem dúvidas, que era a linha que separava o céu e o mar. Mas, exatamente dali, ele tinha os pés sobre o horizonte. E o que via era céu-e-mar. Talvez, fosse algo que só ele poderia ver. Por isso que seu pai jamais soube lhe dizer em melhores palavras.


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