Jardim das Torturas | Jurandy Valença

21/02/2016

“São máquinas celibatárias que pedem alguém que as complete”

Gilles Deleuze.

 

Essa exposição é quase como a confissão de um segredo íntimo, quase. Porque pela sua condição o segredo não se pode revelar. Mas aqui, o segredo não “é um saber que se esconde do outro, um saber que se oculta e dissimula. Virginia de Medeiros nos permite em “Jardim das Torturas” um acesso muito particular ao universo sadomasoquista, e aborda um aspecto misterioso e intrigante da diversidade humana que é o prazer sensual que se pode extrair do sofrimento. Um universo que tem seus códigos de conduta e vocabulário próprios, onde obediência, submissão, dominação, humilhação, escravo e coleira são palavras que se esvaziam do sentido comum e ganham outros significados. E as categorias se dividem em diferentes práticas BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), sigla que nasceu nos anos 90 e abrange diferentes grupos de praticantes numa relação de dominação e submissão física ou psíquica entre Dominador ou Dominatrix e Escravo ou Escrava.

“Jardim das Torturas” é uma exposição em processo, um recorte do universo sadomasoquista que nasceu do encontro, do convívio, da confiança e da cumplicidade da artista com o Dominador Dom Jaime, conhecido também por Mestre Yago, filósofo sadomasoquista, e com suas duas Escravas, Madelina e M. Ele e suas Escravas vivem sobre o mesmo teto há seis anos numa relação 24/7 SSC [dominação psicológica e sexual vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana; com base na liturgia BDSM: ser São, ser Segura e ser Consensual]. A artista chegou até Dom Jaime por intermédio do Blog “SM sem Mistério”, um instrumento informativo que conduz o público interessado pelos caminhos do BDSM mostrando-lhes novas teorias e práticas. No seu blog, o Mestre Yago afirma que a “dor por dor, não causa prazer. É um contexto inteiro que vai dar significado a Dor.  Existe um estado de dor no orgasmo em qualquer relação sexual. Reconhecer esse estado prazeroso natural é entender que a natural expansão e intensificação da dor é uma matemática ligada a física quântica”. A partir dessa experiência e de sua pesquisa é que Virginia construiu o corpo do projeto que foi contemplado no Edital Bolsa Funarte de Estímulo à Produção em Artes Visuais 2012, e agora tem sua primeira parte apresentada no Ateliê Aberto, em Campinas, São Paulo. O projeto foi desenvolvido durante a residência de Virginia no Instituto Hilda Hilst, também localizado em Campinas.

O foco central da artista neste processo partiu da seguinte questão: Como adentrar neste universo rompendo os estigmas que resumem esta prática à mente sádica  e doente,  masoquista e auto destrutiva, portadores de uma parafilia, etc?  A resposta, Virginia de Medeiros encontrou  nos diários íntimos das escravas. Depois das sessões sadomasoquistas, obedecendo ao seu Dono, as escravas escrevem um diário pessoal descrendo em detalhes tudo que vivenciaram. Um espaço de subjetivação do seu estado enquanto indivíduo. Virginia defende que o processo de subjetivação “é sempre ético, por oposição a moral. A moral julga baseada em um conjunto de regras coercitivas. As regras da ética são facultativas e avalia o que fazemos e o que dizemos em função do modo de existência que isto implica”.

A exposição, de caráter processual, reúne diversos elementos que a artista vem desenvolvendo junto com o grupo: um ensaio fotográfico, dirigido pelo Dom Jaime, com base no romance “A História de O”, livro que ocupa um papel importante na vida do Mestre e suas Escravas e, coincidentemente, foi o primeiro contato da artista com o universo SM. No ensaio fotográfico, Virginia se submete ao papel de Escrava, e junto com Madelina e M se deixa conduzir pelo dominador Dom Jaime em uma experiência de confiança que a aproxima da relação de escravidão SM. Parte dos diários foram transcritos pela artista e serão exibidos em chapas de cobre, seguindo os princípios das gravuras em metal. O espaço expositivo da Galeria é tomado como um corpo a ser manipulado, que não só abriga as obras mas que também é parte constituinte delas. Uma das paredes, como uma pele, recebe um espartilho de piercings. Um penetrável de correntes reverbera um som que preenche o espaço e traduz a excitação sonora que o tilintar dos objetos de tortura causam nas Escravas, e que parece ecoar as palavras do Marquês de Sade: “Entre os verdadeiros libertinos, admiti-se que as sensações comunicadas pelo órgão do ouvido são as que mais agradam e deixam as mais vivas impressões”. O cenário sonoro criado por Virginia é repleto de sons de açoites, correntes, algemas, estalos, zunidos de chibatas, chicotes, e gemidos. A fachada da galeria recebe um graffite feito pelo artista Mirs Monstrengo, reproduzindo uma imagem de submissão de Guido Crepax. Referência que traduz e alimenta a prática de dominação de Dom Jaime sobre as Escravas: uma dominação suave e firme ao mesmo tempo, como elas mesmas afirmam. No porão da Galeria, no dia da abertura, a artista apresenta uma performance vivenciando as posições de submissão que o corpo das Escrava experimenta em uma sessão SM: prone, guia da coleira, flip side, auction, inspeção, quadrúpede, entre outras.

Por meio dessas operações simbólicas, Virginia de Medeiros, coloca em fricção sob o signo da carne vários discursos em seu trabalho; o estético, o moral, o político e o sexual. Notoriamente, nessa exposição, todos eles estão subordinados à linguagem do erotismo e mais que tudo, do desejo. A artista promove mediações entre algumas polaridades que são marcantes em sua obra como o permitido-interdito, dor-prazer, dominação-submissão, público-privado, masculino-feminino. “Jardim das Torturas”, mais do que ser uma exposição para ser olhada, é para ser lida, ouvida, sentida, descoberta. O sentido destas obras não está localizado no desenho da fachada, nas imagens das fotografias, nas correntes ou no espartilho que amarra uma parede, nem muito menos na situação/instalação a ser descoberta no porão pelo espectador. O sentido acontece no encontro entre este e a obra. Entre nós e as obras. E nossa reação é de quem surpreendeu um segredo que nunca será desvendado completamente. Afinal essa é a sua natureza. E é nela que se encontra esse jardim que seria a delícia de Bosch, no qual a fauna é formada por corpos, bocas, mãos, pés, vaginas, falos, orifícios, olhos e ouvidos; e a flora são algemas, chibatas, chicotes, máscaras, mordaças, cordas, correntes, nós. E também eu e você.

Jurandy Valença, dezembro de 2013


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