Coletiva Ateliê Aberto – Adriana Penteado Arte Contemporânea

05/05/2003

Local: São Paulo / SP

Curadoria: Adriana Penteado
Produção: Ateliê Aberto e Adriana Penteado Arte Contemporânea
Layout e montagem da exposição: Ateliê Aberto
Artistas: Samantha Moreira, Fábio Luchiari, Beatriz Janota, Nilza Volpato, Sylvia Furegatti, Francisco Ivan Russo e Marcelo Moscheta.

Primeiro, Beatriz Drigo, 58, artista autodidata e recentemente premiada em salões do interior paulista, elege um tema, de preferência o universo rural. A seguir vai em busca do tecido, sempre estampado e colorido, que melhor lhe servirá de base para dialogar com seu tema.

Depois, munida de paciência e tinta à óleo, ela vai paulatinamente incorporando novos elementos e figuras ao tecido, criando uma obra que seduz de imediato pela beleza e simplicidade, e tem grande proximidade com a pintura naif.

Ao abdicar da tela e eleger o tecido estampado como base para suas obras, a artista evoca um tema recorrente dos artistas brasileiros nos anos 80, que foi a questão do suporte na pintura. Nos três trabalhos apresentados, ela intercala com precisão matemática figuras com as estampas, intensificando a cor em algumas áreas, mas sempre respeitando o padrão original.

As figuras, distribuidas espacialmente pelo tecido, ganham ritmo e embora pareça haver uma ausência de perspectiva, os planos não são chapados. D. Beatriz resgata do imaginário popular cores, personagens e lugares e os recria numa crônica visual rica em detalhes e sutilezas.

Sylvia Furegatti, 34, apresenta uma série de desenhos figurativos sobre livros, montados em caixas de metal fixadas na parede. Os desenhos são construídos com tinta e corretivo de texto, e revelam espaços interiores, ambientes da casa, do escritório, espaços onde se vive. Nos oito objetos, Sylvia mantém a preocupação existente em sua pesquisa artística quanto aos aspectos da espacialidade arquitetônica. Aqui, ela dirige seu foco para esses pequenos territórios e os organiza pelo mapeamento do espaço.

O livro lhe interessa enquanto não só suporte do trabalho, mas também pela condição de objeto em si. Sua dimensão, cor, textura, seu próprio espaço “arquitetônico”.

Do texto são selecionadas palavras que estabelecem uma outra narrativa, mais topográfica que textual. Os livros guardam esses mapas de quase lugares, desses espaços interiores.
Uma cartografia ficcional da memória. Invocando o passado, Sylvia mira sobre as páginas o presente e o lugar que lhe cabe ocupar.

Fábio Luchiari, 34, utiliza o próprio corpo como suporte de seu trabalho, seja em performances, fotografias ou vídeos. Aqui, ele exibe vídeos que simultaneamente mostram três performances nas quais usa agulha e linha cirúrgica para escrever os pronomes pessoais eu, tu e ele sobre a pele.

Através dos televisores, nós – os outros – flagramos o artista “bordar” na pele com uma linha, um “quase desenho”, a palavra como imagem. Na fronteira do privado e do público, Luchiari coloca o espectador diante de uma situação um tanto incômoda. Afinal o vídeo, que lida com o tempo em escala real, nos coloca como voyeurs, como se tivessémos alí, presentes, testemunhas do ato, da escrita, do próprio fazer artístico na sua literal manualidade. A ambiguidade da agulha que perfura mas que também costura, “conserta”, que une no mesmo corpo, na mesma pele, uma primeira, segunda e terceira pessoa. Um Outro que na verdade é a imagem de si próprio, o Mesmo, solitário, anônimo, a circunscrever uma nova zona de intimidade.

Samantha Moreira, 31, apresenta um único trabalho, uma fotografia de uma paisagem vista através da janela de um trem. A ampliação da imagem em plotagem transparente e fixada em uma enorme placa de vidro, interage com o espaço e com o espectador, fazendo com que este, de alguma maneira, também faça parte dessa paisagem.

O vidro, que na fotografia geralmente é usado para proteger e vedar, é  suporte e superfície na obra. Com seu peso, fragilidade e principalmente transparência, ele se torna – no trabalho – uma nova janela, que não só nos remete à janela do trem, mas também  àquela outra que na linguagem fotográfica se convencionou chamar de “janela”.

A partir desses deslocamentos, Samantha cria uma instabilidade no espaço perspectivo. Por um momento, temos a sensação que a imagem, quase invisível, está em movimento, que o tempo e o espaço “continuam”. Uma imagem em trânsito de uma “realidade passageira”. Uma paisagem temporária que quase se desfaz na velocidade do instante.

Ao ver a obra de Marcelo Moscheta, 26, um painel formado por 63 gravuras em metal, não é difícil deixar de pensar que poderíamos estar em um gabinete de história natural, mais precisamente na sala de algum entomólogo.

O trabalho – chamado “Mariposas” – é resultado de sua recente pesquisa relacionada à gravura e seus suportes, e apresenta impressões realizadas com água forte, água tinta, ponta seca e alfinetes. Nelas, seis tipos diferentes de mariposas, minuciosamente desenhadas, se multiplicam em papel como se estivessem em planos diferentes, causando um efeito quase hiper-realista.

A obra cria uma ilusão, e o que a priori é bidimensioal aparenta ser tridimensional. As mariposas parecem pairar sobre as folhas de papel, efeito que é fortalecido pela presença de um pequeno objeto, um alfinete – real – fixado em cada uma das gravuras.

Em Moscheta, a organização formal dialoga silenciosamente com uma poética na qual memória e tempo parecem capturados.

Francisco Ivan Russo, 28, apresenta um grupo de objetos de pequeno e grande formato composto por seres híbridos, imaginários, criados a partir da apropriação e junção de brinquedos. Seu bestiário particular é povoado por seres fantásticos que carregam consigo resquícios humanos, mas que são quase monstros.

Alguns parecem que sofreram algum tipo de mutação biológica, outros parecem que sairam de algum conto de fadas às avessas.

Mas seus seres, mesmo grotescos e inanimados, ainda seduzem e parecem ter vida própria.  Russo opera um tipo de “taxidermia plástica”, na qual seu objeto de estudo se adequa tanto ao tema quanto ao material, o plástico. Semânticamente, seu significado se relaciona tanto ao que é artificial como ao que é belo, quanto à forma ou aspecto.

O plástico também é aquilo que é capaz de dar forma ou de alterar uma forma. Em sua etimologia ele é aquilo “que serve para modelar”. E modelando, combinando membros, partes diversas para formar seus seres insólitos, Russo cria um surrealismo pop, irônico, no qual seus objets trouvés destilam humor negro.

Nilsa Volpato, 55, parece seguir uma afirmação de Giacometti, na qual ele diz que “é preciso fazer desfazendo”.

Utilizando-se de tiner e pincéis, a artista apaga imagens de revistas femininas, criando uma nova narrativa, uma pintura que se revela no apagamento.
Artista autodidata, ela apresenta seis trabalhos realizados a partir de revistas de decoração, nos quais elege quartos como espaços a serem velados. Determinadas áreas impressas são encobertas, ou melhor, desaparecem pela ação do tiner, e o que surge são manchas que não respeitam os contornos da imagem, e que criam novas áreas de visibilidade.

O que poderia ser sedutor, no caso anúncios de quartos de dormir, dá lugar a um ambiente incorpóreo, onde a luz é difusa e só há camas vazias. Nilsa realiza um trabalho pictórico às avessas, pois sua obra é uma “pintura” que subtrai a tinta ao invés de acrescentá-la. Nessa desconstrução visual, ela atribui presença pelo efeito da ausência.

Entre a opacidade e a transparência, Nilsa vai assinalando lacunas, dando “corpo”, volume ao vazio.

Texto de Jurandy Valença



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