Alguns tópicos candentes para incendiar | Marcelo Amorim e Thais Rivitti, Ateliê397

21/03/2016

Redes, tramas e teias: o nascimento de um circuito alternativo

O Ateliê397, desde 2010, tem criado ações para refletir sobre a nossa atuação como espaços independentes e ajudar a criação de uma rede. Pensamos que a qualidade do vínculo entre as pessoas determina a força de uma corrente, de uma rede. Por isso, é necessário criar arenas onde os agentes deste circuito independente possam entrar em contato e viver experiências em comum. Assim foi com o livro “Espaços Independentes” (2010), que fazia um mapeamento de espaços em diferentes regiões do Brasil provando que o fenômeno tinha escala nacional. E também com a exposição “Espaços Independentes: a alma é o segredo do negócio”, de 2012, que reuniu um punhado deles na Funarte, mostrando suas diversas estratégias. A exposição não dividia os espaços em nichos, como se fossem stands de uma feira, ao contrário, ela reunia os espaços por suas atuações. Assim, publicações, residências, debates, exposições se aglomeravam e se sobrepunham. As ações do Ateliê397 apostavam que a criação de uma rede entre os espaços configuraria um campo de trocas. Experiências comuns a todos poderiam ser trocadas e, ao mesmo tempo, quando vistos como um grupo, teríamos mais visibilidade, mais voz.

De lá pra cá, sinto que conquistamos espaço. O nome espaços independentes foi cunhado e está no topo de uma lista de nomes que tem crescido. Para nossa satisfação, mais pessoas têm se animado a criar esses espaços fortalecendo um circuito que pode dar vazão à outras verdades. Vejo que a ampliação do circuito independente criou um lugar possível para o surgimento de jovens agentes, artistas ou curadores. Vejo nomes tornando-se reconhecidos e legitimados a partir de ações realizadas nesse circuito, mesmo com poucas passagens por galerias e instituições. O nome “espaço independente” deixou de ser uma interrogação para ser uma afirmação. Foi a partir daí que políticas públicas, como o edital próprio para espaços independentes, surgiu no Estado de São Paulo. Nós fomos um dos espaços consultados pela secretaria de cultura quando tentava-se definir do que trata um espaço independente de artes visuais.

O formato da rede, da colaboração entre iguais como possibilidade de estruturação de um novo modelo de gestão, já despertava interesse no campo da arte desde os anos 1990, em contraposição aos modelos tradicionais. Muitos dos agentes (artistas, curadores, escritores) sentiam-se insatisfeitos em terem sua produção circulando apenas dentro do circuito comercial: compra e venda de trabalhos, contratos de exclusividade com galerias que pouco ou nada investem na carreira artística, textos sob encomenda com tamanhos e formatos fechados… Esse tipo de relação, embora importante, passa a não mais satisfazer por completo muitos dos envolvidos. Daí, a meu ver, surgem os independentes.

Mas poucos independentes tiveram, de fato, a coragem e a competência para encarar de frente essa problemática, ou seja, poucos realmente fizeram frente, pensaram alternativas, criticaram, o circuito tradicional. Como a definição sobre o que é um espaço independente é problemática, não existem critérios definitivos para incluir essa ou aquela iniciativa dentro desse escopo, muitas vezes há uma pluralidade bastante complexa de intenções e de visões. Construir uma rede entre espaços que não partem dos mesmo objetivos é tarefa fadada ao fracasso. Com o tempo, fomos percebendo quais as iniciativas e quais gestores se sintonizavam mais com o nosso modo de pensar e agir, assim, as parcerias foram se repetindo e o vínculo criado de forma mais efetiva.

Os espaços independentes tendem a um certo autocentramento. O cuidado com o nosso próprio jardim requer tanta dedicação que poucas vezes podemos tomar distância e ver a cena de forma mais ampla. Planejar uma programação, executá-la, com o auxílio de diversos profissionais, documentá-la e divulgá-la são tarefas cotidianas de todos os espaços e, para fazê-las bem, é necessário empenho e tempo. Tomando o Ateliê397 como exemplo, em 2015, serão realizadas 5 exposições individuais no espaço da galeria (sempre acompanhadas por debates e textos), três projetos site specifc no corredor, um encontro internacional de gestores com cerca de 10 convidados, uma palestra com interlocutor estrangeiro, uma mostra de videoarte internacional, uma exposição coletiva com artistas de Belém (parte de um projeto maior, que envolveu um ciclo de debates, que ocorreu em Belém), edição de um livro de artista, de um livro sobre os últimos 5 anos da nossa gestão, além da continuidade do programa de múltiplos e da realização do já tradicional Leilão Surpraise. Haja fôlego. Isso é, certamente, uma programação mais intensa que muitos museus e centros culturais, por exemplo. Desse ponto de vista, não estamos mais falando de uma possibilidade de fazer um espaço funcionar, da possibilidade de ele apresentar uma programação constante e se inserir na agenda da cidade. De fato, isso já aconteceu. Basta também olhar anos de história (os 18 anos do Ateliê Aberto!) e a programação que desenvolvemos no tempo.

 

Como manter-se jovem

Novas soluções, novos problemas. A arte não interessa a ninguém até que ela vire um commoditie, até que um nome vire um brand, uma grife. Antes disso, ela é incômoda, suja, chata, mal acabada e todos viram as costas pra ela impacientemente. Após cruzar aquele limite, no entanto, ela passa ser desejada, importante e valiosa. Os espaços independentes atuam nesse trecho incômodo alargando os horizontes do que é aceitável. Nossa atuação, para o bem ou para o mal, por diversas vezes, resulta em alimentar, revolver e refrescar o circuito estabelecido.

Sinto que a estética e o jeito despojado de agir dos independentes foram capturados. Hoje é mais interessante se posicionar assim e os mais diversos negócios se apresentam como espaços independentes: sejam eles na realidade galerias, coworkings, buffets ou salões de festas. Táticas que surgem como uma maneira de simplificar, uma maneira de viabilizar dentro da precariedade são tomadas como uma moda. Assim em vez de coquetéis, temos agora festas pagas, escuras e enfumaçadas nos museus. Em vez de leilões beneficentes, temos rifas. Em vez do vinho branco servido por garçons, temos cerveja em tinas de gelo. Galerias que são perfeitos cubos brancos abrem galpões mal acabados para abrigar propostas pouco comerciais.

Todos sabem que o jeito capitalista de lidar com o dissenso é a assimilação. Tornar similar. Se antes lutávamos para sermos reconhecidos como um elo importante dentro do circuito: aqui estamos. Isso nos coloca em outro lugar, carecendo repensar nossa atuação. Como crescer e ainda assim continuar sendo crítico? Como evitar as fórmulas e os vícios da instituição e como lidar com a força gravitacional poderosa do mercado? Hoje, as feiras de arte são mais importantes que as bienais, os prêmios ali conferidos são legitimadores em igual medida. Os curadores atuam nas feiras. Os museus acolhem as galerias. Dando-nos a impressão de que só há mercado. O circuito independente serve a quem?

A medida em que os modos de operar dos espaços independentes passam a ser incorporados pelo circuito formal (as conversas com artistas em galerias, os editais para jovens curadores em feiras de arte, as festas realizadas por museus para arrecadação de dinheiro para uma exposição, entre outros exemplos) eles têm que ser repensados. É claro que esses deslocamentos (do independente para o estabelecido) não se dá sem uma guinada conservadora na condução das atividades. As conversas nas galerias trazem interlocutores que legitimam o trabalho do artista: eles estão lá para garantir a qualidade do “produto”. O espaço para jovens curadores na feira passa pelo crivo dos organizadores da feira (não são poucos os casos de projetos politicamente mais ousados que tiveram dificuldade para se realizar nesse ambiente). As festas de arrecadação de museus são eventos da elite e para elite, onde o caráter “despojado” é cuidadosamente construído, mas evidentemente segue sendo falso. Mas, de certa forma, podemos dizer que mesmo os setores mais oficiais e caretas da cultura perceberam a necessidade de abrir para novos formatos. Não foi uma mudança estrutural no modo de funcionamento do sistema das artes, que continua a colocar o mercado em primeiro plano. Mas é interessante perceber essas ações indiretas da cena independente, como elas reverberam, como elas se expandem.

 

Crise da maturidade?

Por outro lado, uma espécie de cultura do edital e seus recursos rarefeitos tornam os artistas em especialistas na redação de projetos que atendam aos interesses políticos, falar o que se quer ouvir, enquanto transformam os produtores culturais em rivais. Enfraquecendo, portanto, os vínculos da rede. Tirando de vista que há um propósito maior na independência: fazer as coisas de outro modo.

A palavra independente muitas vezes gera um falso debate em torno de si. Um dos recorrentes equívocos é associa-la a uma emancipação financeira ou um isolamento, uma recusa ao diálogo. Trata- se de uma independência de ação. Atender sempre as regras do jogo vai gerar resultados já esperados. O que fazemos não é sensato. A arte não vem desse lugar.

É importante criar respiros, olhar com sinceridade e solidariedade para o artista, zelar por um campo propício ao artista e à criação. Hoje, o mercado e a sugestão de um sucesso comercial preenche os espaços de arte com ansiedade. Uma ansiedade de atender expectativas que torna pouco fértil o debate e paralisa o artista. O circuito independente tem de ser esse espaço de liberdade, lugar do encontro, terra fofa, adubada, prenhe de potência e um contraponto à esse jogo sufocante que se instalou.

O edital é uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo em que possibilita projetos mais consistentes (pelo aporte financeiro) acaba por engessar um pouco os modos de trabalhos. Exige um cronograma rígido, sem espaços ou respiros. O que o edital faz é normatizar a atuação dos independentes quase transformando-os em pequenas instituições, que devem trabalhar na velha lógica: cumprir os prazos, escrever os relatórios, as realizar “tarefas”. Pensar em quanto queremos seguir assim, se o que se ganha – quando se ganha um edital – é maior do que o que se perde, se é possível subverter um pouco os editais… São questões que ganham cada vez mais importância. E é com uma ponta de alegria que eu constato isso. Pois, de certa forma, vivemos uma crise de maturidade. Pensar a questão da institucionalização dos independentes é, mais uma vez, repensar sua proposta geral, seus modos de funcionamento, sua duração, seu tamanho. Assim, caminhamos.


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