Afinidades Eletivas

05/05/2005

Local: Espaço Cultural CPFL – Campinas / SP
Artistas: Marco do Valle, Walter Silveira, Marcelo Moscheta, Daniel Senise, Ana Almeida, Ernesto Neto, Fabio Bitencourt, Gil Vicente, Del Pillar Salum, Beth Moisés, José Roberto Shwafaty, Daniel Acosta, Luana Veiga, Clarice Lispector, Cecilia Stelini, Arthur Barrio, Pedro Hurpia, Edouard Frapoint, Vânia Mignone e Osvaldo Goeldi

Curadoria: Agnaldo Farias
Realização: Espaço Cultural CPFL – Campinas / SP
Produção e montagem: Ateliê Aberto

Afinidades Eletivas foi idealizada com a finalidade de demonstrar que uma exposição de arte pode, mais do que apresentar boas e variadas obras, evidenciar sua condição de ponto de encontro virtual entre artistas que, mesmo sem se conhecerem pessoalmente, mesmo pertencentes a gerações distintas, como é o caso de Clarice Lispector e Oswaldo Goeldi, ambos falecidos há muito tempo, compartilham sensibilidades, formas de expressão, buscas e aflições estéticas ou, finalmente, o mesmo interesse por experiências capazes de renovar o nosso cotidiano.

O ponto de partida de Afinidades Eletivas foi o convite feito pela instituição – CPFL -, interessada em abrir espaço para o segmento mais avançado da pesquisa plástica do país. Procedendo desse modo ela pensava em ampliar suas fronteiras no que se refere a levar a público alguns dos problemas candentes do nosso tempo, o que já vem fazendo a partir dos seminários e programas como o “Café Filosófico”, conhecido nacionalmente. Seguindo a mesma fórmula adotada para os encontros teóricos e para a montagem da sua programação cultural, composta por espetáculos de música, teatro, exibição de filmes etc, tudo cuidadosamente elaborado com a perspectiva de, sempre que possível, combinar artistas e intelectuais sediados em Campinas com artistas e intelectuais de todos os quadrantes do país ou até mesmo do exterior, a idéia era incluir os artistas campineiros, com destaque para aqueles que encaram o desafio de propor novos caminhos dentro do vasto e complexo mundo atual.

Animado pelo convite, preocupei-me acima de tudo em contribuir com o adensamento do debate sobre arte contemporânea, apresentando-a como algo que, como tudo o mais no campo geral da cultura, alimenta-se do intercâmbio fértil e rigoroso de idéias. Considerando-se o andar da carruagem, o tratamento da arte como espetáculo e entretenimento e a prevalência do espetáculo e entretenimento sobre qualquer atividade que puxe pelo plano mental, essa atitude minha postura, admito que vazada na prudência, afigura-se como estratégica. Afinal, como qualquer um minimamente interessado no andamento da produção cultural haverá notado, é comum, mesmo entre alguns dos pensadores sofisticados, o que não deixa de ser surpreendente, aqueles que vêm a público proclamar a falência das artes plásticas contemporâneas. O reacionarismo insinua-se sub-repticiamente provando que a esquizofrenia é um mal que ameaça a todos. Entre nós virou uma banalidade o expert de uma área determinada pontificar sobre aquilo que acontece numa área vizinha e que ele rigorosamente ignora. Ao lado disso temos o pavoroso senso comum que, passados 250 anos da criação da Estética, ainda supõe que “gosto não se discute” e que o trabalho do artista decorre de uma inspiração de contornos espíritas.

Diante disso, diante da necessidade de se realizar uma pequena, mas substantiva amostragem da variedade e da gama de possibilidades, seja no âmbito dos suportes de linguagem seja no âmbito das questões tratadas que hoje compõem a totalidade da produção plástica nacional e contemporânea; diante ainda da necessidade de esclarecer que o trabalho artístico, como o de qualquer outra disciplina, pauta-se em aspectos objetivos, necessitando, por conta disso, de muito estudo e dedicação, pensei que o melhor a fazer era convidar dez artistas locais, deixando que cada um deles, por sua vez, convidasse um artista – não necessariamente artista plástico e não necessariamente vivo -, cujas obras fossem apresentadas ao lado das suas. Dez artistas que, como todo e qualquer artista, guardam referências com as obras de seus pares.

Naturalmente os convites aos artistas campineiros não surgiram a partir do nada: a parte do contato anterior senão com os próprios artistas com algumas de suas obras, resultado de anos participando de salões de arte por todo o Brasil, tive acesso a vários portfólios e entrevistei-me com um grande número de pessoas. Desse processo decorreram conversas sempre estimulantes, várias delas acontecidas dentro dos ateliês e que invariavelmente tinham por assunto a pesquisa de cada um, além, naturalmente, das angústias, obstáculos e a disciplina de trabalho tão próprias do processo de construção de suas obras. De todos os encontros sobrava a constatação das dificuldades em ter seus trabalho compreendido, um trabalho experimental, comprometido com a ampliação da nossa sensibilidade e capacidade expressiva. Mas se essa é a regra do jogo, sobrará sempre a célebre formulação de Helio Oiticica “da adversidade vivemos”. O segundo consolo é a certeza de que não se está sozinho. Que outros artistas, espalhados por todos os quadrantes do país, seguem igualmente na construção de suas trajetórias; trilham exemplarmente seus próprios caminhos produzindo obras que servem de alimento e estímulo aos seus colegas.

Coerente com o nome, Afinidades Eletivas provocou o encontro entre esses espíritos afinados entre si. Para tanto, como já foi dito, cada um dos artistas convidados foi instado a convidar um outro artista, desde que de fora de Campinas. Por quê de outro lugar? Porque ao invés de se juntar com aquele cujo contato é freqüente, o objetivo era propiciar o encontro com pessoas cujo diálogo se dá à distância, quase sempre com um estudando a obra do outro, sem que necessariamente um saiba do outro.

O resultado desses encontros traduziu-se numa montagem pautada pelo esforço em apontar, afora a proximidade mais evidente entre os componentes de cada uma das duplas, uma proximidade mais geral, nascida da constatação de que certas pesquisas identificavam-se a ponto de se constituírem em sub-grupos. O curioso foi que, ao final, todos eles, como se pode verificar a partir das reproduções de seus trabalhos neste catálogo, terminam por abordar ainda que por vias transversas, diretamente ou indiretamente, o problema do corpo.

A porta de entrada da exposição foi destacada pelos trabalhos da dupla formada pelo artista Marcelo Moscheta e seu convidado, o carioca Daniel Senise. Representados por duas pinturas [no caso do Moscheta – é gravura] de grandes dimensões (ao redor de 2 X 4 metros), ambas coincidindo no tema – Moscheta trazendo-nos uma casa vista à distância, Senise com um interior arquitetônico fechado no detalhe de um piso de tábuas corridas, tinham ainda como denominador comum, afora o convite ao nosso olhar para que nos aproximássemos, a compreensão pouco usual do que seja pintura. Para os dois, pintura é algo que prescinde pincel e tinta. No caso do primeiro uma superfície constituída por uma miríade de pequenas gravuras, um jogo de acumulação onde o todo acontece fabricado pelo mínimo. No caso de Senise, a pintura resulta das marcas do chão contra o qual ela foi colocada depois de sua superfície haver sido recoberta de cola.

A menção à casa retorna de modo ainda mais enfático no momento seguinte da exposição. Ali comparece a construção familiar, ostensiva em sua presença apesar de paradoxalmente artificial, de Daniel Acosta, o artista gaúcho convidado pelo Roberto Shwafaty. A noção de que hoje a convencionalidade da casa parece sucumbir face ao progressivo processo de transformação em imagem reverbera na fotografia de Shwafaty, na qual se vê que as árvores de um parque foram insolitamente ocupadas por lâmpadas fluorescentes que se lhe aderem aos troncos como parasitas.

O problema da imagem é tratado em chave distinta na dupla situada à direita de Acosta/Shwafaty, composta pelo pintor Pedro Hurpia e seu convidado, o fotógrafo paulistano Eduardo [Edouard] Fraipont. As pinturas de Hurpia, os frios ambientes interiores, ainda que não sejam realizadas em chave hiper-realista, dissolve [ficamos na dúvida se aqui vai para o plural?] a materialidade das coisas, transforma-os, à maneira de fotografia, em luz.. Procedimento homólogo ao de Fraipont, apenas que esse executa em fotografia mesmo. O próprio corpo do artista, fonte de desenhos feitos à luz é-nos apresentado em duas grandes imagens. Entre os dois auto-retratos uma mesa sobre a qual o público se depara com um grande conjunto de imagens fotográficas passíveis de serem manipuladas e fixadas na parede compondo um mosaico mutável.

Como a reagir frente a esse processo em que as coisas cedem espaço às suas representações, na extremidade esquerda dessa primeira sala, encontramos as pinturas e desenhos de extração expressionista de Fabio Bittencourt e seu convidado, o pernambucano Gil Vicente. O primeiro emprega seu corpo na construção de figuras humanas e de animais em branco e preto ou em cores, não importa. Importa sim o dispêndio de energia, a afirmação do gesto como um recurso de sobrevivência num mundo onde os gestos e as experiências deles decorrentes são mais e mais esvaziados. Quanto a Gil Vicente, seus auto-retratos monumentais matando figuras públicas – George Bush, Lula, o Papa -, são o mesmo que a liberação de ódio social, purgam os recalques e as incompreensões que sofremos calados e impotentes.

Do corpo transformado em imagem à defesa do corpo como instância primordial avançamos pela sala seguinte à de Vicente e Bittencourt, em direção às obras de Ana Almeida e do carioca Ernesto Neto. Os volumes brancos amarrados, presos às paredes, jogados ao chão, são metáforas de corpos que regrediram à condição de casulos, mas cujas vidas estão aparentemente comprometidas por esses amordaçamentos. As fotografias de Neto, a seqüência de em que ele aparece recobrindo o seu próprio rosto com linha, parece o ponto de partida dessa questão. Adivinhamos o momento em que o enrolamento progressivo acabará por sufocá-lo, fazendo com que desapareça na tessitura sólida de uma máscara incompreensivelmente criada por ele mesmo.

Na outra extremidade da sala, do lado direito de quem entra, assistimos ao convívio entre as pinturas de Vânia Mignone e as gravuras sombrias de seu convidado, swaldo Goeldi, figura maior do nosso modernismo, ímpar pelo modo como deu lugar à solidão, o silêncio dos habitantes de uma cidade, dos homens concentrados no trabalho do qual garantem sua parca sobrevivência. O mundo de Mignone é também assim, despojado. É também tosco e nele a própria natureza, grafada através de gestos ásperos, de linhas garatujadas em preto ou cores escuras, não contribui e não nos acena com calor. Não deixa de ser curioso que em meio a tanta balbúrdia e feerismo da atualidade, essa artista reaja construindo um mundo pautado no isolamento e na incomunicabilidade.

Que mundo é esse afinal, parecem comentar no espaço encravado entre Almeida e Neto, Mignone e Goeldi, Marco do Valle e seu convidado, o paulistano Walter Silveira. O primeiro apresentando-nos a imagem de um corpo nu de mulher, um desses corpos encontráveis ad nauseam nessas revistas masculinas. Submetido a uma espécie de “scaneamento”, o corpo aparece como que por efeito de uma mirada escrutinizadora que a vai apresentando fragmentariamente deitada sobre uma tumba/cama feita de pedra, possível evocação do tempo em que as musas eram esculpidas. Valle é alvo de uma homenagem por parte de Silveira, um organismo que nos fala da capacidade de articular elementos de seu companheiro: uma câmara vigia o movimento de um plano agressivo formado por escovas de cerdas metálicas, projetando-o simultaneamente num monitor sob a forma de chuvisco ruidoso.

Como se vê, o corpo é uma questão recorrente em grande parte dos trabalhos e que, de acordo com a gama de abordagens, mostra-se inesgotável. Nesse sentido a dupla Cecília Stelini/Artur Barrio, é a responsável pela ampliação mais radical do problema. O dia da abertura da mostra deu lugar a uma performance de Stelini, ação que posteriormente seria editada e projetada intermitente ao longo de todo o tempo de duração da mostra, onde ela efetuava o enxerto de um coração de porco no interior de um peixe. O simbolismo da situação, a idéia de troca de energia expressa no encravamento de um coração no interior de um animal de sangue frio encontra um interlocutor nos trabalhos de Barrio. Conhecido por suas ações igualmente pautadas na troca física e simbólica entre as coisas e seres, Barrio nos traz, além de um desenho que tem o vigor próprio de um caderno de anotações, uma sucessão de registros e operações rápidas, algumas trouxas de pano amarrados com instrumentos de carpintaria, sugerindo matulas de trabalhadores, a equipagem singela e eficiente de trabalhadores comuns.

O corpo é igualmente o horizonte das pesquisas de Del Pilar Sallum e sua convidada, a paulistana Beth Moysés. Enquanto as fotografias de Sallum fazem do corpo um objeto caleidoscópico, um território cujo detalhe pode se converter num abismo de reflexões e espelhamentos, o vídeo de Moysés, como vários de seus trabalhos, leva-nos a pensar no corpo feminino como campo de batalha, alvo de disputa incessante que nele reverbera sob a forma de traumas e rituais dramáticos. Nesse sentido a simples imagem de uma mão arrebentando os espinhos do galho de uma roseira, impacta pelo que alude ao fado da mulher sempre as voltas com rotinas ancestrais dolorosamente arriscadas.

A última sala foi reservada a uma performance de Luana Veiga, na prática o seu encontro com um texto de Clarice Lispector. Carimbando-o no chão e paredes brancas, letra por letra, a artista vai como que se apropriando, apropriação que se dá através do gesto metódico, do esforço dosado, repetido e concentrado, como se cada gota de cada palavra fosse algo a ser cuidadosamente vertido. Através de sua ação necessariamente lenta o corpo da artista vai emprestando corpo à palavra da sua convidada, fazendo-o ganhar espessura, avançando pelo espaço como uma tecido que, sem que possamos refrear, terminamos por ler.

Da arquitetura de Moscheta e Senise do começo à palavra de Lispector/Veiga impressa no espaço, o que temos são visões multifacetadas do corpo. Algo a ser considerado pelo visitante da exposição, uma medida da importância que esse tema encontra hoje em dia. Mas a exposição não se esgota aí: se cada artista tem sua história, sua aventura particular, as duplas revelam os modos profundamente variados como um está no outro, como uma pesquisa repercute na outra, o que serve como um índice concludente de que a linguagem dos artistas ultrapassa as barreiras físicas, uma rede universal cuja qualidade da tessitura corresponde ao sumo da cultura, algo que contribui decisivamente para aproximar os homens.


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