A Casa Onírica – VI Semana Fernando Furlanetto

26/04/2003

de 26 de abril a 11 de maio de 2003
Local: Espaço Cultural Fernando Arrigucci – São João da Boa Vista / SP
Curadoria: Juliana Monachesi
Produção e montagem: Ateliê Aberto- Samantha Moreira e Fábio Luchiari

 

Na cidade dos sonhos onde desemboca a estrada perdida há uma casa em chamas. A imagem da casa nos filmes de David Lynch, a casa assassinada de Lúcio Cardoso e a casa de devaneio de Gaston Bachelard habitam subterraneamente esta exposição.

No térreo desta construção curatorial, 16 artistas exploram o imaginário ligado à idéia de casa: a casa como memória, símbolo, cuidado, obstáculo, ilusão, mistério, incômodo, sonho, ruína dos sonhos.

Graziela Kunsch, a 17ª artista convidada para a exposição, não expõe trabalho nenhum na estação, seu trabalho é habitar temporariamente uma casa em São João da Boa Vista, um work in progress emblemático da atual migração de exposições e discussões sobre arte para o âmbito doméstico.

Uma exposição cuja idéia norteadora é o conceito de casa parte, necessariamente, de uma constatação histórica do momento em que os artistas passam a incorporar como matéria-prima de suas obras os objetos de seu entorno. De Duchamp à arte pop, muitos são os usos e significações que utensílios, móveis e objetos pessoais ganham na produção artística.

No Brasil contemporâneo, do colchão-pintura de Leda Catunda aos livros e lâmpadas de Sandra Cinto, das canecas e colheres de Arthur Bispo do Rosário à sala vermelha de Cildo Meireles, inúmeros são os exemplos de casa poetizada na arte.

Gustavo Rezende constrói uma peça que dialoga com a tradição escultórica moderna, mas insere nesta história uma cisão, ao revestir a escultura com embalagens de produtos alimentícios consumidos por ele.

Também Odires Mlászho opta, aqui, por trabalhar com refugos domésticos: ele confere caráter glamouroso a insignificantes cadáveres domésticos: sabonetes gastos e pequenas sujeiras da casa. Em ambos os casos, estes detritos transformados em relíquias ou “restos invertidos de grandes ambições”, nas palavras de Certeau ao designar o enfraquecimento da significação dos lugares, resgatam a poesia do desperdício.

Rochelle Costi, Martha Lacerda e Domitilia Coelho catalogam usos e desejos de casa. Três momentos do inventário da domesticidade que Rochelle realiza há anos estão presentes na exposição: uma fotografia de série “Quartos”, que evidencia como o cuidado na decoração e a primitividade do sentimento de ninho desconhece separações de classe; uma imagem da série “Pratos Típicos”, que revela a dimensão de intimidade da tarefa de cozinhar; e outra da série “Mãos de Ouro”, que resgata o trabalho de amor das práticas manuais femininas e das “artes domésticas”.

Na instalação “Enxoval”, Martha constrói com papel rendado objetos típicos de um enxoval de noiva: a colcha da cama, as fronhas dos travesseiros, a toalha de mesa, tudo envolto por uma cortina indevassável.

Este trabalho surpreende o quanto há de “realeza” nos enxovais, pois é costume dar aos noivos tudo o que há de mais refinado na família, peças que dificilmente serão usadas por serem preciosas demais. Por conta do tamanho apequenado dos objetos, a artista instaura um estranhamento, como a indicar a infantilização de tudo o que se mantém intocável.

É da ordem do intocável a imagem escancarada na instalação de Domitilia. Aqui, o acesso ao ambiente interno indevassável é tornado possível porque a artista fotografa páginas de revista de decoração, casas dos sonhos tornadas públicas por uma ideologia de consumismo. A obra da artista mimetiza um backlight em proporções agigantadas, revelando sua estrutura: lâmpadas e fiações elétricas aparentes evocam, entretanto, as moradias da população de baixa renda, criando uma situação de verso e reverso não apenas entre público e privado como também entre cotidiano e devaneio.

Os sonhos de abrigo e refúgio estão representados na exposição de múltiplos pontos de vista: Gabriela Oliveira oferece um panorama poético da morada familiar. Sua pintura “O Homem, a Mulher e a Criança” convida o espectador a contemplar um idílio, ao mesmo tempo em que ironiza a representação pictórica como janela para o mundo. Já Caio Reisewitz, nas fotografias da série “Ocupação”, escarnece do sonho de proteção e felicidade da nova morada: seus closes de folhetos publicitários anunciando empreendimentos imobiliários distorcem as idealizações burguesas, cuja marca registrada são os nomes estrangeiros que batizam seus condomínios-prisão: Maison du Soleil, Miami Gardens etc.

Sylvia Furegatti põe em questão o sonho da casa própria em uma instalação interna compreendida por paredes obtusas que hospedam móveis impossibilitados de propiciar conforto. Segundo a artista, trata-se de investigar as expectativas e fantasias particulares que movem as pessoas a projetar suas casas, o que pode ser vivenciado no vídeo com depoimentos de proprietários de construções em fase de acabamento. Paulo D’Alessandro sobrepõe em fotografias enigmáticas edifícios em construção, histórias de demolições, casuísmos do sistema imobiliário e ruínas.

Nos trabalhos de Amilcar Packer, Fabiano Marques e André Komatsu nota-se um desejo de tecer os lugares domésticos. As fotografias de Packer pressupõem um caminhar entre quatro paredes, uma interação paciente com os objetos da casa, como ao empilhar cuidadosamente três mesas para então escalar a frágil e efêmera escultura.

Se, para Bachelard, “a casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade” e distinguir todas essas imagens eqüivaleria a desvendar a alma da casa, Packer revela aspectos instáveis e sinistros desta psicologia.

Michel de Certeau nos ensina que a prática do espaço é indissociável do lugar sonhado. “Caminhar é ter falta de lugar. É o processo indefinido de estar ausente e à procura de um próprio”, escreve o pensador francês.

Ao tecer infindáveis caminhos dentro de uma mesma sala, Komatsu, no vídeo “Pi”, persegue o lugar sonhado. Na sua série de gravuras “Para Morar”, a racionalidade arquitetônica é posta em xeque pela incisão de memórias: o “mapa” de um quarto não dá conta dos segredos guardados na última gaveta da cômoda do quarto da infância, por exemplo. Komatsu grava esse descompasso, afirma a impossibilidade de afirmar o imemorial. No desenho da casa em chamas inscrita dentro de outra casa, entretanto, o artista roça o imemorial.

As instalações de Marques, que ao longo da exposição adquirem diferentes configurações, jogam tanto com a idéia de arte como processo de reconstrução diária quanto com o princípio de mutabilidade do espaço íntimo, espelho da psique de seu habitante. Sua “Escultura de Garagem” ecoa lembranças do lugar de liberdade e experimentação na casa, mas que paradoxalmente também funciona como depósito. Segundo o artista, os dois trabalhos podem vir a intercambiar peças ao longo da mostra, configurando um “Capacitor Escultórico”, que poria em evidência a capacidade que alguns sistemas tem de armazenar energia. A casa é um espaço de “capacitância”.

Vanessa Poitena explora a energia do espaço vazio, do cômodo ainda por habitar. Seus trabalhos entremeiam a casa natal e casa nova, confundem a promessa e o provisório, ecoando as palavras de Bachelard: “Talvez seja bom guardarmos alguns sonhos para uma casa que habitaremos mais tarde, sempre mais tarde, tão tarde que não teremos tempo para construí-la.

Uma casa que fosse final, simétrica à casa natal, prepararia pensamentos e não mais sonhos, pensamentos graves, pensamentos tristes. Mais vale viver no provisório que no definitivo”.  Na literatura brasileira, é emblemático o livro “A Crônica da Casa Assassinada”, do escritor mineiro Lúcio Cardoso, em que se acompanha a ruína de uma aristocrata família mineira, uma saga que se desenrola nos limites de uma casa de fazenda.

A casa desempenha o papel principal: os personagens são feitos do cimento da casa e esta, da carne dos seus habitantes.

A perspectiva dos temores que habitam a casa, da casa que sangra, que sofre, que abriga os mais trágicos segredos está representada na mostra sobretudo pelas obras de André Santangelo e Fafá Noronha, que desvendam ralos e gavetas: compartimentos sombrios, receptáculos do real.

Finalmente, Raquel Garbelotti e Graziela Kunsch curto-circuitam a “Casa Onírica”: com a vídeo-instalação “Boa Vista”, Raquel questiona o abandono de estações ferroviárias em todo o Brasil apresentando um retrato em quase-movimento da estação da cidade de Resende, que foi transformada em cortiço.

Graziela leva a São João a experiência do Centro de Contracultura (Casa da Grazi), que funcionou em São Paulo em 2002, demonstrando que a potência maior da arte contemporânea está na rua ou está na casa – duas possibilidades não antagônicas de encontro, troca e afeto.

A epifania acontece na rua ou acontece na casa e, do ponto de vista do museu, a casa é rua também. Teríamos chegado a um descompasso tal que a “epifania da arte” só não é mais possível em espaços tradicionais?

 

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